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A festa do pijama de Bolsonaro

Philipp Lichterbeck
Philipp Lichterbeck
27 de março de 2024

Honesto, sincero, corajoso – é assim que o bolsonarismo gosta de se ver. A realidade geralmente mostra exatamente o oposto como a visitinha à embaixada da Hungria enfatiza.

Depois de ter o passaporte apreendido, Bolsonaro ficou dois dias na embaixada da Hungria, em BrasíliaFoto: Eraldo Peres/AP/dpa/picture alliance

Na próxima vez em que eu quiser bater um papo com um dos meus amigos da vizinhança, me hospedarei na casa dele. Deixarei que me arranje, caso disponível, um quarto de hóspedes, traga uma máquina de café e peça uma pizza. Talvez até receba um pijama. Apesar de ter minha própria casa, não muito longe dali, onde as luzes funcionam, a água corre pelas torneiras e não chove pelo telhado, já que estou lá, por que não ficar mais tempo, de preferência por duas noites.

O que mais chama a atenção em Jair Bolsonaro, seus filhos e aliados é a discrepância entre alegação e realidade. Ideais sublimes são carregados como ostensórios, a honestidade e a verdade são proclamadas, em contraposição à maldade e à hipocrisia dos rivais políticos. Mas não resistem a nenhuma checagem. É a típica história dos que pregam água e bebem vinho, como diz um provérbio alemão.

Bolsonaro venceu as eleições de 2018 com a promessa de que não era corrupto e que iria combater a corrupção em seu governo. Hoje está claro que nunca se tratou disso, mas sim de enriquecer seu clã, como comprovam os escândalos envolvendo joias e relógios, as rachadinhas, a compra de imóveis de luxo, as relações próximas com milicianos, os escândalos de corrupção envolvendo vários de seus ministros e a colocação do quarto filho na política, que, com apenas 25 anos, já foi indiciado por falsidade ideológica e lavagem de dinheiro pelo Departamento de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado (Decor) da Polícia Civil do Distrito Federal. A fruta nunca cai longe do pé.

Bolsonaro alegou ser um verdadeiro democrata que, ao contrário do STF, respeitaria e implementaria a vontade do povo brasileiro, afinal, ele teria sido eleito pelo povo. Mas, no momento em que o povo decidiu por outra pessoa, o respeito ao povo acabou, e Bolsonaro, segundo tudo o que se sabe, tentou se manter no poder por meio de uma intervenção militar.

Fuga para embaixada

O esvaziado conceito de "pátria!" é bradado de bom grado por Bolsonaro, que vendeu uma refinaria da Petrobras para a Arábia Saudita por um preço bem abaixo do mercado, como apontou a Controladoria Geral da União (CGU).

Bolsonaristas também gostam de falar sobre o Deus cristão. Seu ídolo, porém, interpreta os dez mandamentos de forma muito flexível: "Não matarás", diz o sexto. "Policial que não mata não é policial!", diz Bolsonaro, e "dar dois tiros ou 15 no marginal para mim é a mesma coisa". Não vamos nem começar a falar sobre a relação de Bolsonaro com a ideia cristã central de amar ao próximo. Ele provou seu desprezo pela vida do outro durante a pandemia de covid-19.

Passemos a dois pontos centrais do pensamento bolsonarista: masculinidade e verdade. Os modelos tradicionais são a base para formação de identidade para o movimento bolsonarista, cujo repertório padrão inclui tirar sarro de diferentes projetos de vida. Parte da ideia de masculinidade, obviamente, que um homem deve ter coragem: ele não deve demonstrar medo, precisa enfrentar situações desagradáveis, ir corajosamente para a batalha e lutar por suas convicções.

E o que faz Bolsonaro quando o cerco aperta? Ele foge na surdina para a embaixada de seu melhor amigo ultradireitista Viktor Orbán, onde fica com a esperança de escapar de um mandado de prisão das autoridades brasileiras. É o mesmo comportamento que ele demonstrou no início de 2023, quando se manteve nos EUA por três meses para esperar como as coisas se desenvolveriam no Brasil depois que seus partidários invadiram a Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro.

Diferente de Trump

Pode-se pensar o que quiser do ídolo de Bolsonaro Donald Trump, mas Trump enfrenta todos os processos judiciais contra ele e não foge para o exterior ou para uma embaixada estrangeira para tomar um café. A suposta coragem masculina de Bolsonaro está longe disso. Seu eterno adversário foi mais corajoso: Lula enfrentou seus acusadores, foi e voltou da prisão intacto. Bolsonaro e seus filhos, por outro lado, estão constantemente reclamando de como todos seriam injustos com eles. Muito macho!

Bolsonaro não só mostrou que é um covarde, mas também um mentiroso ridículo. Provavelmente nem mesmo seus apoiadores mais cegos, que geralmente acreditam em qualquer bobagem que lhes é contada, acreditam que a visitinha na embaixada, alguns dias depois de Bolsonaro ter tido o passaporte confiscado, foi puramente para socializar com amigos de direita. É óbvio que Bolsonaro queria esperar para ver o que aconteceria para que, no caso de um mandado de prisão, ele estivesse em um lugar onde a Polícia Federal não tem permissão para entrar.

Verdade, coragem, transparência, pátria: são apenas palavras vãs para Bolsonaro, que ele usa quando parece oportuno. Ele não sabe o que fazer com seus significados. "Pelos seus frutos os conhecereis", diz o Novo Testamento. Depois do episódio da embaixada, conhecer Bolsonaro por suas ações significa mais uma vez encontrar um homem covarde e mentiroso – que, no entanto, é adorado por milhões de brasileiros que querem acreditar que ele é o "salvador do Brasil".

Mas essa é uma outra e longa história.

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Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais da Alemanha,Suíça e Áustria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.

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Cartas do Rio

Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio de Janeiro, em 2012. Na coluna Cartas do Rio, ele faz reflexões sobre os rumos da sociedade brasileira.